quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
O Jogo
Eu nem penso sequer que algum dia namores comigo. Meço e continuo a medir. E não passa. Meço e arremesso os braços para um lado e para o outro e não encontro o tempo para nos encontrarmos como soía! Não há! E já antes não havia, as paredes desta habitação bem chegadas umas às outras. Habitar, viver, habituar-se a. E não ser árbitro na questão que sempre se põe: onde começa e termina o jogo?
quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
É só às vezes.
Não todas. Não acontece em todas as situações. Mas em muitas. Viro-me para o meu lado esquerdo e falo contigo. Onde tu não estás. Não é sempre. Às vezes nem teria nenhum sentido. Noutras sim. Teria todo o sentido.
domingo, 6 de Dezembro de 2009
NorteShopping, um encontro.
Não há como o NorteShopping para estes encontros e lá nos encontrámos. A novidade era a tua masculina companhia, que eu tentei o mais possível não encarar, avaliar, medir, sentar no relvado após uma má manobra de râguebi.
Reparei mais em ti portanto e notei que estás mais forte. Que o tempo passa. Que a violência do teu olhar se mantém. Que continuas a não saber andar. E no entanto… esse peso aqui e ali distribuído, só o poderei atribuir a uma pequena descida no grau de alerta e raiva em que sempre te vi viver, e o teu corpo contigo. Prendeste-me e eu desprendi-me. Sou se calhar hoje ainda vítima do teu esconjuro. Deixa estar. Tenho uma, duas fotografias tuas, sem par. Conheci-te menina, a dar pulos, conheci-te muito bem. Jogávamos às “vinganças” e delapidavamos pastilhas na via norte, o teu Corsa Sport a ditar a lei num oeste de aqui. And yes, we had great sex. And yes, we had loads of fun, my topless girl, dois pequenos mas cruciais seios. Conheci-te sem ódio.
Houve sim um momento em que me perdi. Perdemo-nos habitualmente quando as coisas para haver não estão escritas. Assim seria. Cerraste os dentes mas eu já não estava.
Milfontes, Montegordo. Deixa estar, não te esqueço.
Reparei mais em ti portanto e notei que estás mais forte. Que o tempo passa. Que a violência do teu olhar se mantém. Que continuas a não saber andar. E no entanto… esse peso aqui e ali distribuído, só o poderei atribuir a uma pequena descida no grau de alerta e raiva em que sempre te vi viver, e o teu corpo contigo. Prendeste-me e eu desprendi-me. Sou se calhar hoje ainda vítima do teu esconjuro. Deixa estar. Tenho uma, duas fotografias tuas, sem par. Conheci-te menina, a dar pulos, conheci-te muito bem. Jogávamos às “vinganças” e delapidavamos pastilhas na via norte, o teu Corsa Sport a ditar a lei num oeste de aqui. And yes, we had great sex. And yes, we had loads of fun, my topless girl, dois pequenos mas cruciais seios. Conheci-te sem ódio.
Houve sim um momento em que me perdi. Perdemo-nos habitualmente quando as coisas para haver não estão escritas. Assim seria. Cerraste os dentes mas eu já não estava.
Milfontes, Montegordo. Deixa estar, não te esqueço.
quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
No que diz respeito a Milão
Lembro-me de eu e um amigo termos decidido não fazer o que os outros da excursão tinham decidido fazer - "tiro" certeiro a Veneza ou a Verona - e antes pelo contrário termos ficado para cheirar Milão em fim-de-semana. Caminhámos, caminhámos, descobrimos a igreja onde reza a "Ultima Ceia" de Leonardo fechada para restaurações, corremos a Pinacoteca Brera, subimos ao telhado das mil estátuas do Duomo, a catedral de Milão. E vimos as raparigas de Milão no fim-de-semana ser no geral vulgares, mal vestidas, feias. Numa jogada de antecipação em relação a humoristas da nossa actualidade dissemos: "Parecem de Ermesinde!...", e assumimos que o subúrbio enchia Milão enquanto a "nata" eventualmente subia aos lagos, ou algo parecido. Éramos novos, divertimo-nos imenso. Seguiamos então pela vida gloriosamente sem GPS, que aliás ainda não tinha sido inventado. Milão não é feia, pois é Itália. Que saudades, meu Deus!
Na sexta-feira anterior tinhamos jantado com uns tipos que depois descobrimos serem brasileiros, após quinze minutos de um inglês esforçado - deles um paulista superior, de camarote! Lembras-te?
O mundo ia ser nosso. E o mundo ainda será teu, meu amigo que comigo em Milão estiveste. A euforia era então transitoriamente mais minha, tu sabes bem do que falo.
Como se costuma dizer, ficou a amizade, que não é puta, que é como um atestado.
Na sexta-feira anterior tinhamos jantado com uns tipos que depois descobrimos serem brasileiros, após quinze minutos de um inglês esforçado - deles um paulista superior, de camarote! Lembras-te?
O mundo ia ser nosso. E o mundo ainda será teu, meu amigo que comigo em Milão estiveste. A euforia era então transitoriamente mais minha, tu sabes bem do que falo.
Como se costuma dizer, ficou a amizade, que não é puta, que é como um atestado.
Do Comboio à Noite
E pensava: não há dúvida, o caminho está todo armadilhado, vê lá tu, há quinze dias eras para ficar até mais tarde, o miúdo teve febre, amanhã o aniversário adiado e tens a mulher doente, não duvides, o caminho está tomado e arranjado, não vais conseguir nem querendo sair dos trilhos, meu amigo, descarrilar não será para ti. Estão todos ao telemóvel combinando, trocando referências, repensando estratégias, percursos, sedativos...
E lembrava-se duma noite em que de comboio voltava para casa e efectivamente tinha descarrilado, um descarrilar ligeiro, nada de feridos, apenas um pequeno susto na penumbra da noite terminal, um sacudir, um chiar, um estremeção e umas diagonais até à imobilização final, três quilómetros a pé até a estação e depois mais um até casa, este já era o definido.
Sim, ok, está lembrado, mas um pequeno descarrilar não será ainda possível, se já aconteceu porque não acontecer outra vez?
E teimoso abanava a cabeça, e insistia em blindar as ideias ao abandono do mais estranho dos planos.
E lembrava-se duma noite em que de comboio voltava para casa e efectivamente tinha descarrilado, um descarrilar ligeiro, nada de feridos, apenas um pequeno susto na penumbra da noite terminal, um sacudir, um chiar, um estremeção e umas diagonais até à imobilização final, três quilómetros a pé até a estação e depois mais um até casa, este já era o definido.
Sim, ok, está lembrado, mas um pequeno descarrilar não será ainda possível, se já aconteceu porque não acontecer outra vez?
E teimoso abanava a cabeça, e insistia em blindar as ideias ao abandono do mais estranho dos planos.
sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
terça-feira, 24 de Novembro de 2009
Rua do Ouro
Estás mais magra e desconheço a razão, a grande razão que te trouxe de volta. Premonitoriamente reencontrei-te agrupada e à sombra de aquela como que irmã mais velha que tu e eu sabemos existir na que já foi a nossa vida. Que existiu e depois morreu portanto, teu o corte e - peço não me desdigas - meu o virar as costas, fazer deslizar o corpo, reabrir o rio, despedir os acompanhantes, executar a derradeira música. Estás mais magra e continuas a rir como antecipando o antigo pedido que raramente era dado, sorrir. Sendo mais fácil o riso, o alto tom descosido. Era sempre triste o teu sorriso. Um V muito aberto e a descer, o olhar quase fechado, filipino. Já te tinha eu lembrado várias vezes este ano, podes descansar porque foi só mais uma, mais viva porque contigo presente. Não me pediste um beijo. Há quinze anos que não me pedes um beijo.
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