segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Duplo J.

J. está sentado num banco de jardim e chora, as lágrimas são esta linguagem universal que não se perde, desta ele lembra-se bem. Não sabe porquê as palavras outras desapareceram, ficaram baralhadas, confusas, como explicar, ensinar, proteger explicando, um homem de 67 anos, eu sei que… como se diz, como se diz, porra, caralho, depois no hospital será muito tido em conta, pois, fumador pesado, efectivamente, encontrado a chorar ao lado da esposa, quatro anos mais velha e dependente. Dizem que é Alzheimer, dizem que não, desde há um ano, dois, piorando dia-a-dia, esquecendo, deixando de fazer, com medo, com trémulo, perguntando tudo, tudo, porque ela sabe bem que o seu cérebro está a morrer mais depressa que o resto do corpo, e agora, meu deus o que vou eu fazer com esta mulher. Tinham saído a passear depois do jantar, ele andava com dores de cabeça e a vista que falhava às vezes, só às vezes, vamos dar uma volta, era assim todas as noites e a vizinha reparou, sentados no banco em frente ele agarrado à cabeça e ela a abraçá-lo, tempo muito tempo, deixa-me ligar, não é normal. E agora ele assim! Chega uma ambulância.
O médico aproxima-se da esposa, foi-lhe dito, dela não vais saber nada, não diz coisa com coisa. Via-se que se sentia perdida, tinham-na trazido de um banco de jardim para outro banco, agora de espera no hospital, o seu marido lá dentro, ele não andava bem, e agora como vou eu fazer, eu que agora já não sei nada de nada, “pela sua saúde, senhor doutor”, “não - pela sua saúde e a do seu marido”, “obrigado, e pela sua também”, corrige, e sorri, olhos-de-água, ficou mais descansada, agora sabe que vem o filho buscá-la. O nome J. Agarrada a uma resma de cartões onde o seu bilhete de identidade, o médico viu, era bonita, uma cara até um pouco reguila, hoje não, é como se lhe tivesse nevado em cima um mês, acompanha em silêncio o marido até ao internamento, há lágrimas e lágrimas, estas são da melhor qualidade. O filho pergunta e agora, sou o único filho, vou ter que parar de trabalhar, tenho eu três filhos, o filho segurança mas nada prepara não havia rede para um dia assim, pai, o tabaquinho, não era? Pai, pai?
Dias depois sentada ela e o marido, este algo melhor, ela sem palavras que dizer, dois cérebros com bichos a roer lá dentro lado a lado, dois bichos mas diferentes, ele vai recuperar, ela à espera dele, uma vida.
O médico todos os dias a cumprimenta, com ele diz uma que outra parvoíce, um que outro termo técnico para balanço. O médico sabe que não se pode ter tudo, muito menos compreender uma coisa assim. O médico chega à sua hora e despede-se, dela também se por eles passa, abre, fecha a porta de saída e é logo engolido por um túnel escuro.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Hoje

Se calhar era melhor deixar de contar os dias.

Disse.

E ela disse: "Porque tu não sabes o que perdes!" "Sim, eu sei, eu sei..." - disse. Não sabia eu o que ganhava.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Esquece.

Deixa-me explicar:
À esquerda a sopa, o iogurte
À direita.
Viajamos, empatamos.

Hoje será mais um daqueles
Pequenos dias, como discreta
É a luz que incide, pequena a
Mão que empurra.
Vê: é o Metro do Porto, lentamente
Entra pela terra dentro e
Desaparece.

Deixa-me explicar: disseste-me
Para arrumar as coisas -
Sopa, iogurte, o não ter destino.

Acção? Acção: pedir um céu mais acima,
Morder este ar que se aproxima,
Perder o meu sangue todo e enfim re-
Pousar.

Sabes, eu fico por aqui.

Noves fora quatro.

Era uma rapariga pequenina e azougada, e a primeira testemunha da minha nova vida. Estava eu em cima de não uma mas duas ondas, uma separação ultra-rápida, uma paixão avassaladora.
Convidei-a para almoçar, trouxe o namorado. Preocupado, inseguro, mais novo ele, sentia-me eu então nesses dias imensamente velho, incalculavelmente forte. Não interferi nem joguei contra ou a favor, a comida veio e foi embora, mas no meio de todas as certezas jogadas lembro ter a miúda dirigido as suas balas contra mim, e eram de borracha amiga: “ e achas que ela se vai separar? Eu vejo-a tão contente tal como está! Não sei não…” – sabia ela bem que tinha toda a razão deste mundo e do outro onde quem eu amava vivia, mundo impenetrável onde três anos da minha vida foram decididos, tornei-me entretanto perito em longboard, o que é uma forma de dizer - afoguei-me uma e outra vez, vi um filmes.

Noves fora cinco.

É a mentira então aquela forma que nós temos de conviver com a verdade. E a mentira primeira é a consideração tida de que em todos os momentos, cafés tomados, paragens de autocarro, a circulação dos gestos, das mãos, do pensamento incontido, será gerida por um mesmo gerador, virado a norte ou a sul mas se norte norte, mas se sul sul.
Neste ponto da viagem costumo contar a história duma amiga minha que durante uns meses manteve um platónico esquema com alguém também conhecido meu. Algum desvario e bastante cansaço depois foi a olhar para o mar ou equiparado que ela lhe terá dito que não podia separar-se – pois, era casada – o desgosto para os pais, a incerteza própria e uma incorrigível sensação de menos-valia, desculpa, desculpa, desculpa. Dois meses passados estava a moça saída de casa, telefonou e comunicou ao meu amigo a decisão tomada em Las Palmas com direito a avião mais cedo. Porém e consultados os partidos parlamentares ela acabou por ir viver com outro homem, e não vamos qualificar parametricamente porque este homem sim teve prémio, porque o meu amigo não , caso este pelo mundo conhecido e comentado, afinal não há desvario que não traga desvario maior em cima. Mais um ano e eis a minha amiga recasada com o primeiro evento, o marido índice, e grávida. Tem dois filhos, pararam ali as placas tectónicas de mexer, para nunca mais, eu sei, já lá dizia Vinicius de Moraes.

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

3ª homenagem a Inês Pedrosa

Morava eu portanto em vila de médio sapato, a distância não grande da muy nobre, leal e invicta. Tinha fama de centro importante de tráfico de droga no Norte, a par de Vila Nova de Gaia. Tínhamos um certo orgulho nisso, até porque, bem avisados, só lá ia quem queria – não tive nenhum amigo próximo com problemas graves de toxicodependência, conhecidos sim, vários, malta da Primária e de “baixa extracção”, amigos antigos que sempre saudei pelas ruas, não faziam mal a uma mosca. De outros soube depois. No 9º ano, por ex., adquirimos alguns rapazes para a turma, repetentes, que metiam umas pastilhas e fumariam umas ganzas, uma vez tivemos que pôr um debaixo do chuveiro para acordar, nada de especial. Eram repetentes e assim para trás ficaram, os que não repetiram foram simpaticamente absorvidos pelo pessoal como boa gente.
O café da malta, que eu como semi-malta, lembro, raramente frequentava, era o café de quem era quem na terra, entrava lá o meu pai por ex., não era sítio para complicações. Dali se saía para a praia, para os copos, para a noite, quando eles ou ela haviam. No fim de tudo apareceu uma discoteca, anos depois as discotecas dariam problemas na terrinha, os disparates do costume dentro e fora das instalações, nos meus tempos pelo que ouvia dizer nem por isso.
No 12º ainda ninguém tinha carro, entrou um tipo para o grupo que tinha uma Hi-Ace e assim fazia transportes “públicos” de muita gente para muito lado. Outros tinham umas “aceleras”. A maior parte tinha bicicleta e chegava, era o necessário para ir à praia no verão.
A viagem de finalistas era uma instituição e aí acontecia sobretudo muita bebida e mais nada, o grupo como efeito inibidor de uma trajectória de sedução que sempre implicaria um amansar da masculina fera. Na viagem de finalistas um amigo meu atirou-se à piscina às três da manhã e fez a clássica luxação da coluna cervical, esteve internado no Hospital, fomos visitá-lo pois uma amiga minha tinha uma irmã enfermeira. Anos depois com esse meu amigo faria um programa de rádio com música fixe onde nem sempre as horas eram certas nem os blocos de notícias ou publicitários saiam quando era preciso. Esqueceu-me o nome do programa.